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Crítica | Planeta dos Macacos: A Guerra

Crítica | Planeta dos Macacos: A Guerra


Em 1977, Robert Scholes escreveu o fantástico Science Fiction: History-Science-Vision, livro em que ele explora o histórico da ficção científica, a ciência por trás dessas narrativas e a abrangência sociológica que elas trazem. Em dado momento, o autor diz: “A visão de mundo da ficção científica é uma que corresponde ao seu próprio tempo”. Partindo dessa afirmação, é possível dizer que Planeta dos Macacos: A Guerra pinta um retrato de nossa época
Brilhantemente dirigido por Matt Reeves, a terceira parte da nova trilogia da franquia não empolga tanto em termos de ação quanto o filme anterior, mas certamente reflete e discute seus temas principais com mais profundidade e maturidade que seus antecessores. Nessa trama, os símios vivem escondidos em uma base na floresta enquanto os soldados americanos arquitetam um plano para se vingarem dos animais. Partindo desse ponto, Reeves e o roteirista Mark Bomback traçam os paralelos entre a distopia ficcional e o nosso mundo: duas forças opostas estão em pé de guerra por conta de suas visões de mundo distintas. Parece familiar, não?
As semelhanças com a realidade se acentuam ainda mais com a apresentação do Coronel (Woody Harrelson), o líder militar que, para proteger seus soldados, quer construir um muro que os separe de seus inimigos. Reeves e Bomback escreveram o roteiro muito antes de Donald Trump sequer pensar em ser político, o que só prova o simbolismo nefasto que um muro segregacionista traz para a humanidade. O roteiro constrói o personagem de forma que ele personifique o que há de pior hoje em dia nas sociedades do mundo todo: o medo e o ódio do diferente, a subversão do conceito de justiça para um ideal de vingança, a falta de diálogo e a hostilidade generalizada para qualquer coisa que possa ir contra um conceito antiquado de “moral e bons costumes”.
Embora o filme critique ferozmente o conservadorismo norte-americano e o nacionalismo exacerbado que vêm tomando vários países do Hemisfério Norte, em nenhum momento a trama demoniza por completo essa visão política, fazendo com que as ações do vilão, embora não possam ser justificadas de forma alguma, sejam minimamente entendidas no contexto em que a narrativa se insere — a dupla de roteiristas evita uma visão maniqueísta que poderia reforçar ainda mais o problema real.
Além do ótimo roteiro, Reeves entrega uma excelente direção completamente inspirada na Nova Hollywood da década de 70: o cineasta aplica aqui técnicas de enquadramento, iluminação e movimentação de câmeras usadas por Stanley Kubrick (usando o clássico enquadramento centralizado), Martin Scorsese (usando os cortes para criar um ritmo vibrante para as cenas), Francis Ford Coppola (se aproveitando de luzes e sombras para criar atmosfera e refletir o estado de espírito dos personagens em tela). Além de gênios do cinema, Reeves também bebe de algumas inspirações em pintores neoclássicos como o francês Auguste Courder — se você já assistiu ao filme, veja que essa pintura do mestre tem uma composição central bem parecida com a utilizada na última cena do longa.
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Em certos momentos, Reeves vai além de simplesmente emular traços de estilo desses diretores, mas chega a de fato citar suas obras: Apocalypse NowTaxi DriverO Poderoso Chefão e Nascido para Matar são referenciados em easter eggs que os olhos mais atentos vão conseguir encontrar.  Outro elemento muito presente em A Guerra é o suspense, e aqui o cineasta homenageia Alfred Hitchcock com um uso brilhante da montagem para levar o público para a ponta da cadeira: os planos são alternados de forma que cada tomada adicione um pouco mais de tensão na cena. Além disso, Reeves se aproveita da trilha sonora (e do silêncio) para aumentar essa sensação.
Planeta dos Macacos: A Guerra pode decepcionar um pouco aqueles que buscam uma apoteose ainda mais frenética que Planeta dos Macacos: O Confronto, mas certamente vai deliciar e deslumbrar aqueles que, no meio de tantos blockbusters rasos, buscam um filme pipocão que saiba discutir seus próprios temas com sobriedade, maturidade  e sem apelar para o pedantismo.